Faltam provas nas alegadas acusações contra a Kaspersky

Uma reportagem com fontes anônimas do jornal norte-americano “Wall Street Jornal” colocou ainda mais lenha na fogueira das acusações do governo dos Estados Unidos contra o antivírus russo Kaspersky. Segundo a reportagem, o antivírus teria sido uma peça-chave na obtenção de informações sigilosas da Agência de Segurança Nacional (NSA) e resultado de uma provável colaboração entre a inteligência do governo russo e a empresa de segurança.

O problema é que a reportagem não explica como isso aconteceu. E há diversas explicações para o fato, mesmo que o antivírus russo tenha realmente tido algum papel no incidente. De acordo com o “Journal”, um colaborador da NSA levou arquivos para um computador externo à agência, e esse computador tinha o antivírus da Kaspersky Lab instalado. Com uma suposta “ajuda” do antivírus, espiões russo tiveram acesso aos arquivos.

O primeiro detalhe que chama atenção é o ano em que o caso ocorreu: 2015. O ano de 2015 guarda dois fatos marcantes para a Kaspersky Lab.

Em fevereiro daquele ano, a empresa revelou a existência do “Equation Group” – um grupo de hackers altamente sofisticado que realiza ataques de espionagem e tinha até um “supervírus” capaz de contaminar os chips de discos rígidos. Hoje, o Equation Group é abertamente ligado à NSA por muitos especialistas.

Alguns meses depois, em junho, a Kaspersky Lab veio a público com a informação de que a empresa sofreu uma invasão altamente sofisticada de um grupo ligado ao governo de algum país. Sem citar nomes, a empresa disse ainda que poderia haver um elo entre quem atacou a empresa e os criadores do vírus “Duqu”. O vírus Duqu, por sua vez, teria vínculo com o Stuxnet, que seria uma obra da Agência Central de Inteligência (CIA), dos Estados Unidos.

Esses fatos indicam que autoridades americanas já estariam descontentes com a Kaspersky Lab em 2015.

Além disso, há explicações plausíveis e benignas para o incidente. Antivírus podem, às vezes, enviar informações sobre arquivos presentes no computador dos usuários para um servidor central. Essas informações ajudam a empresa a criar vacinas preventivas e impedir que o ataque se dissemine a outros clientes.

Como a Kaspersky Lab já tinha conhecimento das ferramentas da NSA desde o início do ano, muitos programas da agência seriam naturalmente detectados pelo antivírus. E isso poderia fazer com que o antivírus transmitisse esses dados para os servidores da Kaspersky Lab no momento em que eles fossem detectados no sistema do colaborador. Trata-se de uma operação normal de vários programas antivírus, incluindo o Windows Defender, que faz parte do Windows 10.

Outro detalhe é que, se a Kaspersky Lab já tinha conhecimento sobre as ferramentas da NSA, ela não teria que roubá-las novamente do colaborador.

Finalmente, é possível que espiões russos tenham se aproveitado de falhas no antivírus para realizar a invasão no sistema do colaborador. Mas isso, mesmo sendo verdade, não prova por si só que a Kaspersky Lab teve intenção de colaborar com as autoridades russas. Todos os programas de computador possuem vulnerabilidades, e isso inclui os antivírus.

Até o momento, o caso contra a Kaspersky Lab se resume a alguns e-mails trocados entre executivos da empresa – que não demonstram nada fora da relação entre uma empresa e seus clientes – e fontes anônimas que não trouxeram e nem sequer citaram qualquer prova. Acusações carentes de prova são sempre um problema, mas acusações dos Estados Unidos contra a Kaspersky Lab – a primeira companhia a expor os detalhes do aparato de espionagem norte-americano – são ainda mais suspeitas.

Apesar da falta de evidências, porém, a Kaspersky Lab já está sofrendo censura nos Estados Unidos. O uso do antivírus está proibido nos sistemas da esfera federal e é provável que governos estaduais e municipais sigam a orientação. Empresas, por cautela, podem acabar fazendo o mesmo – e, se isso ocorrer, já há quem aponte para a possibilidade de a companhia russa deixar os Estados Unidos.

Agradecemos ao Augusto e ao Igor, colaboradores amigos do seu micro seguro, por fazerem referência a essa polêmica envolvendo a Kaspersky.

Fonte: G1

3 Responses to Faltam provas nas alegadas acusações contra a Kaspersky

  1. rodrigo says:

    O governo dos EUA quer queimar a reputação da Kaspersky faz tempo, é claro que eles querem que ninguém use o Kaspersky e assim a NSA fica livre para bisbilhotar quem eles quiserem…

    • Sergio says:

      Acho que é bem por ai mesmo, daqui a pouco, só falta quererem fazer o mesmo, com a Bitdefender. Vão alegar que a empresa de segurança romena, está junto com a russa.

      • rodrigo says:

        É bem provável, são ultra nacionalistas e envolve a questão financeira também, querem que usem apenas soluções antivírus dos EUA.

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